Tenho mesmo de gritar. Preciso de gritar. Quem sabe esse ato desperte o que perdi.
Carrego no peito uma dor que não consigo que desapareça e esse tormento arrasta-me para uma apatia, um desinteresse, uma necessidade de silêncio, que me desliga do presente. Que me torna uma mulher desinteressante até para mim mesma.
Eu, que até há algum tempo encontrava motivação em tantas direções, cheia de energia, curiosidade e vontade de fazer acontecer.
Tudo desapareceu. Tento reencontrar-me, mas não estou a conseguir.
Sei o que originou essa dor e sei o que faz com que ela não desapareça, mas na verdade é por um amor maior. Não, não é o amor de Romeu e Julieta. É mais o amor do farol pela embarcação que parte.
É esta falta de notícias, que me deixa louca, irritada e desnorteada.
Tenho de confiar que a embarcação navega com um capitão seguro ao leme, os cabos firmes e as velas ajustadas ao vento. Que encontrará a coragem para atravessar as tempestades, mantendo a proa firme até que o oceano volte a serenar.
E que, de quando em vez, ao avistar a luz do farol, se lembre de que existe sempre um porto onde poderá reabastecer-se antes de retomar a viagem. Pois nunca estará verdadeiramente sozinho.
Tudo parece fazer sentido agora que escrevi.
Se na segunda parte tenho mesmo de deixar ir, na primeira tenho de me reerguer. Tenho de reaprender a fazer algo que me tire desta apatia. E é precisamente aqui que está a minha dificuldade, hoje.
Como referiu Fernando Pessoa:
“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.